RÁDIO (3)
Na velhinha Sociedade Cossoul criou-se uma rádio online onde todos podem ler poesia
Em 2020, a centenária Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul passou a acolher uma rádio com um programa onde o público é convidado a ler textos poéticos e dramáticos. Às quartas-feiras, de duas em duas semanas, a entrada é livre e qualquer um pode ser leitor.

foto: Ines Leote
De duas em duas semanas, às quartas-feiras, a centenária Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, hoje sediada na antiga Casa dos Mundos, na rua Nova da Piedade nº66, em São Bento, conhecida pela sua atividade no mundo das artes, espera leitores. 18h59 é a hora marcada porque às 19h os microfones têm de estar a postos e as vozes afinadas para se começar a gravar o programa de rádio OTL da Voz – Ocupação Textos Livres.
Este é um programa da Rádio Voz Online Cossoul em que o público é convidado a ler. Sim, a ler. Poesia, textos dramáticos… o que for. E todas as sessões recebe um convidado. Por aqui, já passaram nomes como os das atrizes Carla Madeira, Lígia Soares, Patrícia Paixão.


foto: Luís Palma Gomes (à esquerda) foi o convidado do último programa “OTL: Ocupação Textos Livres”, apresentado por Filipe Fictício (à direita). Fotos. Inês Leote
“Letras, ciências ou artes?”. “Verde, azul ou vermelho?”. “Beatles ou Stones?”.
Filipe Fictício, um dos criadores do programa, quebra o gelo com perguntas de escolha múltipla para o convidado. Estão abertas as hostilidades. Que se dê início ao espetáculo!
Mas calma, isto não é uma peça de teatro, como a equipa do OTL esclarece. O objetivo não é criar uma “performance” mas sim lançar os leitores numa “procura pelo texto” ao longo de vários jogos de leitura. Este é, sim, um programa de rádio aberto ao público.
Uma rádio na Cossoul
Convidar o público a ler: esta foi uma ideia que surgiu a propósito de um workshop de Miguel Castro Caldas e Lígia Soares em torno da peça de teatro “Se eu vivesse tu morrias” de Miguel Castro Caldas.
Alguns dos participantes juntaram-se e o conceito foi nascendo: “Começámos a pensar fazer alguns eventos na área da leitura”, explica Filipe Fictício. Essas leituras viajaram até aos festivais de teatro, e foi nessas andanças que Filipe Fictício se cruzou com Teresa Rouxinol, uma velha amiga da Cossoul, prestes a fundar uma rádio nesta sociedade – a Rádio Voz Online Cossoul.
“As artes sempre foram uma paixão”, confessa Teresa com um sorriso. Foi por isso mesmo que quando aterrou na capital em 1994 correu as portas da cidade à procura da Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, o lugar onde começaram grandes nomes do teatro como Raul Solnado. “Sempre gostei muito dessa malta velha”, diz.
O primeiro grande contacto com esta associação deu-se quando a companhia de teatro amador da qual fazia parte fez um pedido para apresentar um espetáculo de Woody Allen no espaço da Cossoul, nessa altura ainda na Avenida D. Carlos I, próximo da rua da Esperança. Foi um sucesso.
Entretanto, os anos foram passando, mas, para Teresa, havia uma valência que faltava à sociedade: a rádio. Por isso, em 2019, Teresa e o seu amigo Carlos Cerqueira propuseram à Cossoul isso mesmo. Um pouco ao mesmo tempo, conheceu Filipe Fictício e a sua trupe. Um dos programas da rádio Voz Online Cossoul estava então escolhido.
Mas tudo coincidiu com a chegada da pandemia. As portas da Cossoul fecharam-se. Os espetáculos de teatro e os concertos foram adiados indefinidamente. Que arte vive da distância? A resposta estava ali mesmo: a rádio. Foi montado um estúdio no piso de cima do espaço, onde uma velha placa com a inscrição “On Air” marca aquele território como o de gravação. Mesmo com as portas fechadas, a Cossoul não parou.

foto: Teresa Rouxinol foi uma das fundadores da Rádio Voz Online Cossoul. Foto: Inês Leote
O espaço que acolhe a rádio Voz Online e o OTL tem muitas histórias para contar. Não o espaço físico, que é recente, mas a Cossoul enquanto sociedade, que este ano celebra 137 anos. Essas histórias são contadas pelas fotografias que se espalham pelas paredes, pela memorabilia deixada nos corredores, pelo pó que se acumula nos livros da livraria.
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Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
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A rádio não é só som.
É presença.
É escuta.
É a arte rara de falar para alguém sem saber exactamente quem está do outro lado — e, ainda assim, sentir que essa pessoa está ali.
Na VozOnline, a rádio é um espaço aberto.
Para quem quer aprender a comunicar melhor.
Para quem quer experimentar a própria voz.
Para quem tem coisas a dizer — ou simplesmente vontade de escutar o mundo com mais atenção.
Fazer rádio desenvolve algo essencial:
clareza de pensamento,
consciência do tempo,
empatia na palavra,
rigor e liberdade ao mesmo tempo.
Aqui ganhas prática real de comunicação:
— falar em directo
— entrevistar
— improvisar
— escrever para ser ouvido
— trabalhar em equipa
— criar conteúdos com identidade
Mas há algo que não se ensina em manuais: o prazer.
O prazer de carregar no botão e saber que a tua voz atravessa paredes, ruas, rotinas.
O prazer do silêncio antes de falar.
O prazer de errar, repetir, melhorar.
O prazer íntimo e quase secreto de fazer companhia a alguém — mesmo sem o saberes.
Não precisas de ser especialista.
Precisas de curiosidade.
De vontade.
De coragem para ouvir e para te ouvires.
Se gostas de comunicar, criar, experimentar, pensar em voz alta —
a rádio pode ser o teu lugar.
Vem fazer rádio connosco.
Vem descobrir a tua voz.
Vem à Rádio Voz Online na Cossoul
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